Youtubers estão em crise e é muito pior do que você pensa

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Os influenciadores digitais passam por uma crise de identidade. Chegou a hora do teste do tempo.

Se alguém pudesse lhe dar uma carta que lhe prometesse fama, dinheiro e reconhecimento profissional, sendo que a única tarefa que você deveria fazer é filmar um vídeo por dia sobre assuntos diversos, tenho certeza que seriam muitos os que assinariam esse documento em busca de tudo que foi prometido.

Ao mesmo tempo, se fosse possível oferecer uma carta (com termos diferentes) aqueles que alcançaram todas as promessas da primeira e que gostariam voltar “uma casa” em suas vidas, não seria surpreendente que muitos assinariam o documento, felizes com a chance de poder voltar à vida que um dia tiveram. Com menos dinheiro (ou nenhum), nenhuma fama ou pouquíssimo reconhecimento profissional.

Nos últimos meses, dois ícones do youtube demonstraram fragilidade e nostalgia através de entrevistas na internet. Em março deste ano Cauê Moura, youtuber com quase 5 milhões de assinantes, abriu seu coração. Em um quadro do programa “Conversas…” do também youtuber Otavião. O barbudo abriu seu coração durante os pouco mais de 6 minutos de entrevista. Você pode conferir a aqui:

Cauê chegou a esboçar, com a voz embargada, que gostaria de ter sua vida de volta. Assim, sem glamour ou a responsabilidade de manter a imagem forte que tenta passar para seus assinantes, Cauê fez um desabafo sincero sobre sua abordagem e o que havia alcançado em seus sete anos “de youtube”. Seu olhar distante e a tentativa de não espetacularizar seu próprio discurso , acabaram dedurando um jovem na iminência de uma forte crise.

No último dia 25 (terça-feira), PC Siqueira, talvez o cara que inaugurou – ao menos no Brasil – o “do it yourself” de frente para uma câmera, apareceu na “TV Folha” no quadro “Pensando Alto” (clique aqui para assistir) e o discurso do moço de 30 anos não foi muito diferente do seu colega de “empresa”. Sob o título de “Estou num limbo, nem de youtube quero ser chamado“, PC de maneira sóbria desmistifica sua condição dizendo, em outras palavras, que não tem solução para os problemas dos outros, porque também não tem solução para seus próprios problemas. Há inclusive algumas declarações fortes sobre sua rotina.

Quem influencia quem?

Felipe Neto, Felipe Castanhari, Rezende Evil, Whindersson Nunes, Cauê Moura, Júlio Cocielo, Kéfera… são nomes que não são populares para o cidadão médio, que cumpre a via crucis de casa-trabalho-faculdade-casa ou casa-trabalho-casa, mas alcançaram uma fama acentuadamente efêmera quando através de um exército de fãs, conseguiram através de seu conteúdo produzido na maior plataforma de vídeos do mundo, um pequeno reinado, de algum glamour, muito dinheiro e uma vasta ilusão.

Talvez o mais farto dos enganos seja achar que o trabalho de youtuber (como o de um bancário) não seria suficiente para que o tédio ou o desejo de mudança não batessem a porta do coração. O dinheiro (ah, o dinheiro) ele compra muita coisa, mas a insatisfação humana é inerente a todos que se envolvem em qualquer rotina. Mesmo aquelas que aparentemente te colocam no centro do mundo, mas nada é eterno.

O que espantava aos que assistiam a ascensão desta molecada era o título atribuído a eles: INFLUENCIADORES DIGITAIS.

Talvez porque a palavra INFLUÊNCIA seja carregada de experiência e informação, ingredientes muito distantes das produções que esses jovens levaram até a plataforma. Sem contar as inúmeras gafes e crises nas quais se envolviam. O universo youtuber é carregado de vaidade, tretas e discussões, normalmente alimentados por debates infrutíferos ou claramente vazios. Mesmo Felipe Neto, o mais ousado na hora de discursar e falar sobre suas ideias, beira um jovem histérico, com bipolaridade acentuada, quase sempre patinando em defender o seu ponto de vista.

Se encarados como artistas de um circo digital dispostos a oferecer baixo entretenimento, talvez caiba o quinhão. De outra forma não podem ser encarados. São jovens aproveitando a oportunidade de fazerem fama e dinheiro oferecendo a um público de senso crítico baixo ou nulo, aquilo que eles querem assistir. Sob este aspecto são honestos, embora alguns tenham criticado o conteúdo que eles mesmos abraçam hoje.

O preço pago é alto e perigoso

Mesmo que ninguém duvide que a condição de ficar 24 horas dedicado às atividades como administrar os milhões de inscritos ou ser convidado para campanhas publicitárias que podem garantir a compra de carros novos e imóveis, esses jovens são da mesma matéria prima do seu professor, do seu médico, do porteiro e do jogador de futebol. É tudo gente! Pessoas que se cansam, que sonham alto, que se arrependem, que amadurecem, que crescem e que muitas vezes se veem em tramas das quais gostariam de se desvencilhar, mas por conta das responsabilidades já assumidas, preferem sorrir e fingir que tudo está bem.

O youtube sempre foi apontado como o meio de entretenimento que não cometeria os erros da TV,  só que de tão óbvio, menosprezaram que todas as vaidades que chegam à telinha e que podem alavancar carreiras, tem a mesma propriedade de destruir outras. Se não forem bem orientados e quem sabe, mesclarem suas atividades profissionais, podem estar vendo uma grande derrocada entre os youtubers mais famosos do Brasil, não importando a quantidade de inscritos que eles possuam. A questão é: fora do aquário onde os peixes são pescados com lixo,eles conseguirão sobreviver?

… E olha que imaginavam que o problema do youtube seria a diminuição dos valores pagos pela plataforma. Tadinhos, o problema pode estar mais perto do que vocês imaginam.

Escriba de dia, de tarde e de noite e, quando não falta mais nada, observador da vida e da arte, não necessariamente na mesma ordem.

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