Westworld | O empoderamento feminino de Dolores e Maeve

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Westworld chega ao sexto episódio repleta de suspense e ficção científica. A série da HBO, produzida por Jonathan Nolan e J.J Abrams traz muitas surpresas, mas o que chama mais atenção é o papel que as personagens femininas têm assumido na trama. A história coloca cada vez mais a figura da mulher como principal questionadora de um sistema moralmente duvidoso.

O espectador é levado a um parque temático futurista que reproduz o Velho Oeste. Até aí tudo bem, só que nesse ambiente o visitante convive com androides de aparência humana, que podem atender seus desejos mais profundos. Os turistas têm liberdade para fazer tudo que a sociedade proíbe (matar, estuprar, trair). Nesse cenário existe apenas uma regra: os robôs não podem matar o visitante. A proposta do parque é que o visitante se liberte de todas as “amarras” e privações que a sociedade impõe. Ciclos que exaltam qualidades do ser humano são desenvolvidos, assim como os que mostram sua pior faceta.

SPOILER DEPOIS DESSE PONTO!!!!!!!

O despertar de Dolores e Maeve

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A série levanta diversas questões morais, uma das mais gritantes para mim é relacionada às personagens femininas. Nesse ambiente de faroeste as mulheres aparecem retratadas como prostitutas, que os homens podem se apropriar a qualquer momento, ou donzelas esperando para serem resgatadas. A figura feminina na série é ligada a obtenção de um desejo do sexo masculino. Segundo esse pensamento prostitutas devem ser possuídas e descartadas. Ao contrário da mocinha, que surge como a representação da mulher “ideal”: bondosa, submissa e virgem.  Essa visão machista e arcaica de que mulheres não devem expressar suas vontades é colocada à prova no ciclo dos androides femininos do parque.

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Dolores (Evan Rachel Wood) é a androide que exerce o papel da donzela indefesa no roteiro desenvolvido pelos criadores da atração. Sua personagem é totalmente estereotipada. Ela tem os atributos que supostamente provocariam atração masculina. É bonita, doce e completamente inocente. Até a cor azul de seu figurino não é acaso. A coloração está ligada à tranquilidade, passividade, serenidade e até à depressão. Dolores foi desenvolvida para encantar os turistas e sofrer todo o tipo de abuso masculino. Ela repete todos os dias o mesmo papel, e no final acaba eventualmente estuprada ou morta pelos visitantes. O ciclo de Dolores é sobre a fantasia de “possuir” a virgem.

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Nos episódios iniciais tudo acontece como previsto, Dolores vive o padrão abusivo ao longo de muitos anos. Seus pais são assassinados por bandidos, e ela se torna um prêmio sexual no celeiro. No decorrer dos episódios esse papel vai começando a ser desconstruído. Em uma cena significativa no final do episódio dois, Dolores mata uma mosca em seu rosto, depois de dizer em seu checkup que nunca machucaria um ser vivo. É interessante perceber a quebra do padrão. Pode ser um erro do sistema, mas Dolores começa a reagir a tudo o que passou. Se os robôs estão funcionando mal, tudo isso é um grande mistério, mas o importante é notar a irritação de Dolores, externada em atitudes. Até aí todos os seus movimentos passam a ser mais intuitivos, ainda sem uma noção aberta da opressão em que está inserida.

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”Você diz que as pessoas vêm aqui para mudar a história de suas vidas. Eu imagino uma história onde eu não terei que ser a donzela.”.

O momento da virada acontece no quinto episódio, quando Dolores muda de atitude e assume o papel de protagonista de sua própria história. Mas uma vez a escolha do figurino não é acaso. Mudar o vestido para a calça é muito representativo. Ela quebra o ideal de menina inocente, e passa a usar uma vestimenta tipicamente masculina. É uma afirmação de que agora ela ganhou um espaço que era oferecido apenas aos “anfitriões” masculinos.

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Ao contrário de Dolores, que começa a perceber aos poucos sua real condição através das conversas com Bernard (Jeffrey Wright), Maeve (Thandie Newton) descobre sozinha como “acordar”. No sexto episódio ela chega às vias de fato e realmente entende sua origem. Por ser a meretriz, Maeve não desperta o interesse dos programadores quando está mudando de ciclo. Ao passo que Dolores tem sido constantemente atualizada desde o início do parque, e recebe toda atenção quando tem alguma alteração no padrão. Maeve é a representação da prostituta descartável. Se fosse descoberta provavelmente seria desmontada, enquanto Dolores sofreria algum tipo de manutenção e seria restaurada.

A série prova o quanto as mulheres podem ser assertivas, estrategistas, objetivas e brilhantes. Nos primeiros episódios é difícil enxergar a importância que a figura feminina tem na trama. Os capítulos iniciais apresentam personagens tão submissas que chega a dar raiva assistir à tanto machismo em uma produção do nosso tempo, num mundo onde as mulheres estão ganhando cada vez mais espaço. No desenrolar da história você começa a perceber que tudo aquilo era proposital. O exagero era para gerar o desconforto e a redenção no momento em que elas começam a se rebelar contra o sistema. Westworld apresenta ao espectador muitos questionamentos existenciais. Coloca mulheres fortes no centro do diálogo. Quanto mais aprendemos sobre Dolores, mais percebemos que ela não é a donzela idealizada, o mesmo acontece com Maeve. Elas representam duas mulheres resistindo contra as expectativas estabelecidas. Nem virgem nem prostituta, mas protagonistas de sua própria história.

 

Jornalista apaixonada por Cinema. Atua como pesquisadora de conteúdo para roteiro de TV. Maratonista de séries e noveleira de plantão. Encantada por todas as formas de entretenimento. Desbravadora da cultura Pop.

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