No “Dia do Mundial do Rock” não há nada a comemorar

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Aqui no Brasil hoje se comemora o Dia Mundial do Rock, mas por conta das notícias que assolam o momento mais crítico da sua história, o “feriado do metal” parece passar batido nos ambientes para os quais não é convidado.

Em outros momentos, onde a pasmaceira assolava a meiuca do mês de julho, matérias da TV aberta faziam suas “homenagens” ao estilo maldito. Feita por estagiários profissionais que não entendem do riscado, as pautas erravam nomes de banda, pronúncias, discos históricos e apelava para os estereótipos, reforçando-os mais ainda para aqueles que acreditam que “rock é barulho feito maconheiros”. As vezes é, mas o que tem de mais importante no estilo quase sempre é ignorado. Hoje, só o pessoal “da fechada” é que tenta ali besuntar a bandeja dos que cheiram o aroma do metal, para tentar roubar uma lágrima dos corações roqueirenses.

O curioso de termos no Brasil um dia dedicado ao rock é o fato do estilo – em tempos libertários e onde o politicamente incorreto desabrocha – ser cada dia mais fruto de preconceito da maioria da população de um “país continental” e ainda contar com dificuldades pungentes que remetem à década de 1970. Sem ignorar as evoluções que abençoaram a música (e não apenas o rock) nos últimos 40 anos, cidades como o Rio de Janeiro, possuem uma cena eventual, cujo o calendário é voltado para os maiores eventos e os shows restritos às pequenas casas de espetáculo.

O rock está sendo a cada dia material de contrabando, com o devido perdão da expressão cunhada por contraventores e vilões da nossa rotina. Não temos mais a fitinha, mas as descobertas e o rock mais “puro” a gente vai encontrar nos grupos de WhatsApp, no trabalho colossal do blogs (sem remuneração ou patrocínio) e nos fóruns frequentados ora pela velha guarda old school ou por uma molecada interessada em novos sons.

O Brasil que comemora o Dia Mundial do Rock não tem nada de rock. Quando se olha no espelho vê uma indústria cultural disposta a transformar ícones musicais em craques. Não são. Nunca na história deste país o trabalho de publicidade e marketing foi tão mais importante do que o trabalho destes artistas que emprestam suas imagens para aumentarem seus números (views no YouTube, seguidores nas redes sociais, cliques na fanpage, featurings…) sem a devida qualidade.

Alguém dirá: estamos falando de questões subjetivas onde a massa que consome é quem vai escolher o que é de qualidade ou não…

Aí o papo fica chato, porque seremos obrigados a mergulharmos no mar de lama de baixo calibre onde a proposta comercial (quase que global) é apresentar a massa do parágrafo acima a melhor imagem possível. Clipes de muitas cores, canções de refrão léxico lúdico e ginasial como DES PA CI TO e a presença obrigatória das minorias. A música se tornou – claro – plataforma de bandeiras de igualdade para que uma sociedade hipócrita possa bater no peito e dizer que aceita a cultura em todas as suas origens, mesmo que seja tal cultura fruto da cabeça de um DJ em Porto Rico que não estava pensando em ser panfletário: ele queria estourar na noite da rave. Música boa fica, seja ela feita por héteros, gays, trans, travestis ou misóginos. Não é a mão que pinta o quadro que merece a crítica, mas o traço.

Aqueles que ficaram conhecidos por um período no Brasil como “Brock” parece que entregaram suas carreiras ao onanismo do passado, onde prestam homenagens – ano após ano – com discos fracos que só desejam chamar atenção para o que eles fizeram há 25 anos. Por isso as tours cheias de auto-referência. Sempre repito: imaginem vocês se um diretor de cinema fosse conhecido apenas por seus filmes aclamados pela crítica e público e rejeitasse propostas mais ousadas do cinema que não tange a vida do mercado blockbuster.

Lá fora o que se vê é o mercado das despedidas. Na década de 1990, rolaram algumas, quase todas fakes. Virou “A Volta dos Que Não Foram”. Quando você menos esperava, apareciam com discos novos e turnê nova. Menos mal, quem tivesse oportunidade, poderia curtir sua banda mais vezes. Quanto mais a gente tiver chance de aplaudir, melhor.

Boa parte dos “ídolos tradicionais” parecem cansados. “Magina”, os caras estão chegando na casa dos 70 anos. Depois de uma vida reg(r)ada a álcool, barbitúricos, open bar de sexo, dinheiro, brigas, reconciliações, processos, diagnósticos, curas e ressacas, os dinossauros não têm mais fôlego. Mesmo com o grau de profissionalismo acima dos decibéis das caixas, as bandas que já estão deitadas na cama da fama, tentam, aqui e ali, darem alegria aos seus fãs.

Aqui? Bem, aqui não. A não ser que você curta a sessão nostalgia do rock nacional. As bandas de metal quando não estão fora do país, estão arranjando tretas e colaboram para que a cena – que já é difícil com suas mazelas quase que naturais – não se una e torne esse separatismo quase que um característica do metal nacional. Os discos continuam sendo produzidos, os festivais acontecendo, mesmo com pouquíssimo apoio dos meios de comunicação (obrigando aos artistas a um trabalho industrial de divulgação nas mídias sociais); sem contar que o público é de açúcar em dia de chuva: diluído, espalhado e sem as condições necessárias: segurança, informação, boas casas.

Para quem é fã de rock, a gente não precisa de um dia: somos adeptos da hora que acordamos a hora que dormimos, o rock está em todo lugar. Seja ouvindo, seja cantando. Seja pensando, seja assobiando. Seja murmurando, seja lembrando. O rock não tem um dia para culto. O culto do rock é todos os dias. Mas, sabe como é, fica esquisito que logo aqui, no Brasil, onde vez por outra somos indicados como o “melhor público do mundo”, não tenhamos uma cultura rock e ainda sejamos vistos como pessoas de má índole, apenas pelo fato de termos escolhido como referência musical, os caras vestidos de preto.

Texto publicado no blog Minuto HM

Escriba de dia, de tarde e de noite e, quando não falta mais nada, observador da vida e da arte, não necessariamente na mesma ordem.

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