Moonlight: Sob a Luz do Luar | Drama é a essência do que Boyhood não conseguiu ser

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8.5

Ótimo

Moonlight (2017)
Direção: Barry Jenkins
Roteiro: Barry Jenkins
Elenco: Naomie Harris, Janelle Monáe, Mahershala Ali, Alex R. HibbertAshton Sanders e Trevante Rhodes.


Há quatro anos atrás fomos apresentados a um filme que carregava 12 anos de produção nas costas. Boyhood: Da Infância à Juventude possuía uma ideia genial do diretor Richard Linklater contudo não transparecia um pingo de comoção verdadeira. Tecnicamente inovador mas na prática não me surpreendeu.

Se pensarmos bem, Moonlight é o Boyhood aprimorado. Ambos contam a história de um garoto cheio de dúvidas e acompanha fases de sua vida e a auto descoberta no mundo e na sexualidade. Mas é em Moonlight que sentimos a emoção de um drama de verdade.

Dividido em três partes, Monlight enfatiza as diferentes fases da vida de Chiron, negro americano sobrevivendo a intimidação e preconceito. Uma história através do tempo entre a infância e a vida adulta de um garoto que lutava para encontrar seu lugar no mundo.

Barry Jenkins dirige e assina o roteiro. E que direção!
Em uma fotografia com tons mais escuros e que retrata bem os sentimentos de dúvida e tristeza do personagem principal, a forma como Jenkins decide mostrar a descoberta da sexualidade aqui é uma mistura de realidade e sutileza. Em nenhum momento você se sente agredido com cenas fortes, muito pelo contrário, a empatia que acontece é incrível e você vê a evolução do personagem durante os três atos.

Chiron é interpretado por três atores diferentes, Alex R. HibbertAshton SandersTrevante Rhodes.

O ator Mahershala Ali, interpreta o amigo mentor de Chiron, mas pouco aparece no filme e mesmo assim está concorrendo ao Oscar quando na verdade quem devemos falar aqui é do ator que só aparece no terceiro ato, Trevante Rhodes. Mesmo depois de adulto, você vê e sente que no fundo o personagem ainda continua sofrendo com os mesmos problemas de quando era uma criança perdida no primeiro ato.
E isso tudo fica ainda mais incrível quando você descobre que o diretor Jenkins não permitiu que nenhum dos atores dos três atos assistissem as gravações um dos outros, assim cada um poderia levar o Chiron à sua maneira.

A vida de Chiron é um show de horror. Tudo o que ninguém quer pra si. Abandonado pelo pai, vítima de bullying, solitário e amargurado, tendo de conviver com uma mãe drogada, intimidado pelos amigos, sempre sendo tratado como diferente e crescendo com medo, raiva e repúdio de quem ele realmente é, o que faz com que ele decida viver uma vida que não lhe pertence.
Moonlight não é vendido como um filme gay. E isso é importante enfatizar já que o foco do diretor é dramatizar os vários problemas sofridos por Chiron na infância e que desencadearam na mente vazia e triste de sua vida adulta.

A trilha sonora não fica pra trás, assim como o roteiro e a edicão que em conjunto fazem dessa obra algo belo e depressivo.
“As vezes eu choro tanto que acho que vou secar por dentro.” É com essa fala, vindo do Chiron adolescente, que você sente o apelo interno do personagem. Seus gritos por liberdade não são ouvidos. Seus sentimentos de angustia, solidão e incompreensão são transpassados para quem assiste mas não são sentidos pelos que vivem a sua volta. E a veracidade disso tudo é que isso é exatamente o que acontece conosco. Os sentimentos te consomem, corroem e te sufocam por dentro até o momento que você explode.

Quem é que culpa Chiron por ter atacado seu agressor pelas costas? Não existe mais covardia ali. Chiron se revolta contra todos e resolve viver uma mentira durante sua vida adulta. Entrando no crime e tentando ignorar o seu passado. Mas claramente ninguém consegue viver enquanto não enfrentar os seus medos. O final do filme fica em aberto para auto interpretação. É preciso muito mais do que 2 horas de filme pra se recuperar uma alma destruída.

Moonlight é tão real que te faz se perguntar quantos mais Chirons devem estar espalhados por aí, sofrendo bullying por ser quem é, vivendo uma mentira pra negar o passado ou se escondendo de todos com o medo do julgamento. Um pequena obra de arte. Lenta e depressiva
mas profunda e verdadeira.
Se vale o Oscar de Melhor Filme? Eu digo que sim.

8.5

Ótimo

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