Lion – Uma Jornada Para Casa | Longo mas cheio de lições

Reviews
8

Ótimo

“Lion” (2016)
Diretor: Garth Davis
Roteiro: Luke Davies
Elenco: Dev Patel, Nicole Kidman, Rooney Mara

Logo de cara é necessário afirmar que Lion – Uma jornada para casa é um filme emocionante. Ele conta a história de Saroo, um garoto indiano que se perdeu de seu irmão em uma estação de trem e passou 25 anos perdido. O filme pode ser dividido em três filmes diferentes, um filme indiano, um filme americano e um filme que pode ser considerado a soma dos dois anteriores.

No primeiro filme, que podemos considerar um filme indiano, somos apresentados a Saroo e sua família, sua mãe, sua irmã e seu irmão mais velho, que é seu companheiro de todas as aventuras. Eles são uma família pobre que mora na região de “Ganestaly” na Índia, como Saroo pronuncia. A mãe cria os três filhos sozinha com um trabalho de colher pedras. Seus dois filhos meninos ajudam a trazer comida para casa com pequenos delitos, como roubar carvão de trens cargueiros.

Nesses momentos em que os dois estão atrás de procurar carvão e de trocá-lo nos mercados por alimentos é que ficamos cientes da relação entre Saroo e seu irmão mais velho, não é uma relação paternal, mas sim uma relação fraternal na qual os dois se ajudam e se acompanham, sendo muito bem construída. E essa relação fraternal que faz com que o primeiro, e mais importante, conflito do filme apareça.

Por conta do irmão mais velho de Saroo não ser um pai, ele acaba deixando o irmão dormindo em uma estação de trem e sai para trabalhar com a promessa de buscá-lo mais tarde. Quando Saroo acorda ele não lembra do combinado e começa a procurar o irmão pela estação já fechada, acaba adormecendo novamente dentro de um trem e só acorda com o trem em movimento. Pior do que isso, ele só consegue sair do trem quando ele faz uma parada em uma cidade a 1600 km de sua cidade natal.

Neste momento do filme somos apresentados ao tema central: o desaparecimento de crianças na Índia e as suas consequências. A produção mostra com brilhantismo e sem nenhum recurso para enfeitar ou deixar a situação “cinematográfica”, vários problemas que uma criança perdida passa, em um país gigantesco e mais do que isso, com uma das maiores populações mundiais e diversas línguas.

Como foi dito no início do texto, não é apenas um filme, são vários em um só, e isso pode não ser bom. Na segunda parte podemos considerar que temos um produção americana, contando uma história americana como todos estão acostumados a ver. Saroo só se livra de todos os problemas por estar perdido ao ser adotado por um casal de australianos, e é aí que o tom do filme começa a mudar.

Somos apresentados brevemente aos novos pais de Saroo, que são os rostos mais conhecidos do filme, Sue (Nicole Kidman) e John (David Wenham). Logo depois eles decidem adotar mais um garoto indiano nas mesmas condições de Saroo, que passa a ser seu irmão adotivo. Mas, ao contrário de toda a calma que as relações são trabalhadas na primeira parte, aqui tudo isso é apresentado de forma breve e logo temos um salto no tempo.

Após vinte anos, somos apresentado a um jovem Saroo (Dev Patel), que se mostra a princípio um ótimo filho e que aproveitou absolutamente todas as oportunidades que seus novos pais deram pra ele. Uma dessas oportunidades leva Saroo a se mudar da Austrália para os Estados Unidos para estudar em uma Universidade. Lá ele conhece uma garota que se torna sua amiga e com quem acaba se relacionando amorosamente Lucy, interpretada por Rooney Mara

Em determinado momento, Saroo percebe que leva uma vida muito boa e começa a se lembrar de momentos com seu irmão e sua mãe biológicos, e então decide que deve procurar por eles, mais para dar uma satisfação de que está vivo e bem. Nisso, ele descobre que “Ganestaly” não existe de fato, mas era como ele pronunciava sua cidade natal, o que faz com que até quase o final do filme ele fique obcecado por encontrar seu local de nascimento. Essa obsessão leva Saroo a ter problemas com seus pais, seu irmão e sua namorada, problemas que só se ajeitam quando ele consegue encontrar o nome da sua cidade.

E assim no mesmo ritmo desse resumo todas essas cenas são mostradas. Esqueça toda a calma e atenção em apresentar os personagens, dramas e relacionamentos da primeira parte do filme. Aqui tudo é mostrado de forma simplificada e acontece até que rápido, claramente sem o ritmo da primeira parte. E não é uma questão de tempo, ficamos no filme americano por cerca de uma hora, e em metade você já conhece toda a vida de Saroo e seu drama em não encontrar sua cidade natal.

Mas, nessa parte o filme se perde, ele gasta tempo demais mostrando mais do mesmo, mostrando apenas Saroo obcecado em encontrar sua casa, e não mostra a “jornada” em si, que fica para a terceira parte, mas já sem tempo. E nisso de mostrar mais do mesmo, somos bombardeados a uma série de flashbacks, além do clichê do “quadrinho da investigação” que tentam justificar a obsessão. Mas, somos apresentados a poucas cenas novas nos flashbacks, a maioria são cenas que já vimos no começo do filme e isso meio que acaba mais punindo o espectador que o recompensando por chegar até os quase 1:40 de filme até aqui.

Por fim, temos a última parte que é a soma das anteriores em termos de filme. Spoiler <Saroo consegue reencontrar sua mãe biológica> e temos o tão esperado final feliz. Como todo o tempo do filme foi gasto nas outras partes, tudo aqui acontece de forma breve, mas esse fim recompensa o espectador.

Podemos considerar que Lion seria um ótimo filme de 1:20h se só tivesse a primeira e a última parte, ou se fosse unicamente focado em mostrar os problemas sociais que apresenta. Ao transformar a bela história de Saroo em uma “jornada” o filme se perde um pouco, as duas horas de filme acabam sendo excessivas, mas só é preciso ter paciência para ser recompensado com a adaptação de uma história real. Lion – uma jornada para casa é um filme que conta uma ótima história, emocionante, e vale a pena conferir.

Por Rafael Siqueira Torres

Summary

O filme mostra com brilhantismo e sem nenhum recurso para enfeitar ou deixar a situação “cinematográfica”, vários problemas que uma criança perdida passa, em um país gigantesco e mais do que isso, com uma das maiores populações mundiais
8

Ótimo

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