Game of Thrones – A novela da família brasileira

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Não lembro na história recente das séries americanas, um show que causasse uma catarse como Game of Thrones. As temporadas meia-boca de The Walking Dead arrefeceram a hype que havia em torno da série da AMC com a maior audiência na TV americana.

A quantidade de “Live” comentando o retorno da série, demonstra que um dos maiores fenômenos da cultura pop está dentro da nossa vida normal. GoT deixou de ser um evento que tange apenas aos nerds, aos leitores dos livros de Martin ou aos fãs da HBO. Saiu dos becos para alcançar uma legião de pessoas de todas as classes sociais que repetem como um mantra: o inverno chegou.

Da minha memória (se você lembrar de algo semelhante, escreva nos comentários) apenas LOST e Breaking Bad (numa prateleira abaixo) causaram um impacto real na sociedade.

O que seria um impacto real?

Aqueles que estão conectados “24 horas por dia” (uso o termo como hipérbole) estão acostumados aos terremotos das notícias que não mudam nada na vida de ninguém, mas que estão elencadas nos TTs (trending topics) do Brasil e do mundo. Recentemente tivemos um exemplo muito curioso, quando para surpresa de todos, Kate Perry, uma das maiores celebridades do meio musical mundial, abdicou da sua própria imagem em seu novo clipe – “Swish Swish” – para dar total espaço a rainha do rebolado Gretchen. Ela era “who famous” no mundo todo, até que pudesse mostrar detalhadamente seu rostinho no youtube e renovasse sua fama aqui no Brasil, onde encontrou quem ache na “velha senhora” a representação mais hilária de certos sentimentos e momentos. No entanto, muita gente, nem sabe quem é Kate Perry e muito menos que a Gretchen está viva. Portanto o fato da rainha ter estrelado um clipe da Kate, não fez e nem fará diferença alguma na vida de cada uma delas. Este evento que colocou a Gretchen na janela do mundo não tem um impacto real. Passa batido após uma semana de barulho.

Game of Thrones, não.

Você pode estar no consultório dentário, nos restaurantes cujo o papo está elevado e onde você pode ouvir palavras como “Porto Real“, “Cersei“, “Sansa“, “Anão“, “Dragão“, “Jon Snow“. Ontem (17) à tarde, o site do jornal O Globo (não confundir com globo.com) debatia o primeiro episódio da sétima temporada em seu perfil no facebook. Junto com o site, Adoro Cinema, Omelete e todos os canais no youtube de cultura pop discutiam os destaques de “Dragonstone“. Até o canal Porta dos Fundos tirou uma casquinha para dar um parecer bem humorado sobre a memória abençoada de quem consegue entender as dinastias da série e todas as suas motivações. Sobrou até uma espetada em The Walking Dead.

Estivesse a série sendo exibida na Rede Globo (que passou a investir no formato com roteiros mornos) ela estaria soberanamente assunto de domingo, de segunda, Vídeo Show, Jornal Hoje…

Contudo, mesmo ignorada pela Vênus Platinada, a Guerra dos Tronos é notícia nos rádios, na internet, na TV, nos bares, nas universidades, nas camisas, nas flâmulas. Transformou-se, ironicamente na novela da família brasileira, substituindo produções nacionais que se tornaram um ciclo de repetição do que é produzido… lá fora. Tentativas equivocadas de mexerem com um público usando receitas recicladas que ela já experimentou nos últimos 50 anos. Imagina se as pessoas estão acostumadas quando um personagem principal morre na primeira temporada! Nunca!

E pra terminar:

Se o cinema se rendeu às produções adaptadas do mundo dos quadrinhos, com milhões de dólares investidos para retratarem histórias onde o fundo moral mantem a velha máxima do bem contra o mal, GoT diz pra você e pra mim que mesmo os herois podem dar aos seus corações litros e litros de vilania, desde que o poder e sobretudo a vingança estejam envolvidos em suas disputas. Por isso fazem tanto sucesso: porque diferente da armadura vestida de alguns personagens que parecem mais anjos do que gente, Cersei, por exemplo, personagem de incesto, dominadora, fria, sagaz, acha dentro de nós alguma identificação. Não precisamos ser incestuosos para repudiarmos a vergonha da humilhação ou o desejo de vermos nossos inimigos embaixo de nossos pés.

Por isso, seja bem-vinda, até que acabe, depois, vem outra e conquista.

Escriba de dia, de tarde e de noite e, quando não falta mais nada, observador da vida e da arte, não necessariamente na mesma ordem.

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